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15.10 a 08.11.2026
Pinacoteca Ribeirão Pires - Do Solo ao Coro e à Orquestra
Texto Crítico: Nilo Almeida
Obra: Espelho, Espelho Meu... - A Ferida
Como em uma orquestra, cada participante mantém sua singularidade, contribuindo para uma composição construída pela soma de perspectivas, sensibilidades e trajetórias.
O resultado não é a dissolução das individualidades, mas sua amplificação.
“Do Solo ao Coro e à Orquestra” celebra a arte como exercício simultâneo de identidade e pertencimento.
Além dos 16 artistas fixos da Domo, a mostra na Pinacoteca de Ribeirão Pires contará com 17 artistas itinerantes previamente selecionados no 2º edital Domo.
Com texto crítico de Nilo Almeida, a mostra convida o público a uma imersão na arte contemporânea, valorizando novos talentos e ampliando o acesso à cultura.
Local: Pinacoteca de Ribeirão Pires — R. Diamantino de Oliveira, 218, Pastoril, Ribeirão Pires
Período Expositivo: 15/10 a 08/11/26
Texto Crítico:
"Toda exposição coletiva nasce de uma operação silenciosa. Antes mesmo de o visitante atravessar a porta da galeria, um conjunto de decisões já transformou profundamente a condição das obras. Trabalhos concebidos em tempos, lugares e circunstâncias distintas passam a compartilhar um mesmo espaço. Deixam de ser expressões singulares para integrar um sistema de relações que nenhum deles poderia produzir isoladamente. É nesse deslocamento — da autonomia para a convivência — que a exposição começa a construir seu próprio discurso.
Não se trata apenas de reunir artistas. Expor é produzir um campo de percepção. Cada obra altera a leitura da obra vizinha; cada intervalo cria uma pausa; cada aproximação sugere afinidades que talvez jamais existissem antes daquele encontro. O espaço expositivo deixa de funcionar como recipiente para tornar-se um agente ativo na produção de sentidos. A montagem, nesse contexto, não organiza apenas objetos. Organiza experiências.
Essa condição torna as exposições coletivas um dos exercícios mais complexos da prática curatorial. Diferentemente das mostras individuais, onde o percurso tende a aprofundar uma mesma investigação, a coletiva exige que múltiplas pesquisas coexistam sem perder a força de suas diferenças. Não se trata de buscar uma unidade que elimine contrastes, mas de construir uma ordem capaz de acolher a diversidade como potência crítica e sensível.
É justamente nesse horizonte que Do Solo ao Coro e à Orquestra encontra sua singularidade.
A exposição não propõe um panorama nem pretende enquadrar seus participantes sob uma identidade comum. O conjunto preserva a autonomia de cada pesquisa, permitindo que pinturas, esculturas, fotografias e experimentações materiais permaneçam fiéis aos seus próprios percursos. O que aproxima essas produções não é uma estética compartilhada, mas a disposição para ocupar um mesmo território de observação, onde cada obra amplia as possibilidades de leitura das demais.
Percorrer a mostra significa aceitar que o sentido não reside apenas nos trabalhos individualmente, mas também nos intervalos que se estabelecem entre eles. O olhar passa a construir relações, reconhecer aproximações inesperadas, perceber tensões, identificar ecos formais ou conceituais que surgem menos da intenção dos artistas do que da experiência proporcionada pela exposição. A narrativa deixa de ser linear para tornar-se aberta, permitindo que cada visitante estabeleça seu próprio percurso.
Talvez seja essa uma das maiores contribuições da exposição coletiva para a arte contemporânea. Em um tempo frequentemente marcado pela especialização, pela segmentação e pela afirmação constante das individualidades, a exposição oferece um espaço onde diferentes modos de pensar e produzir podem coexistir sem a necessidade de se uniformizar. A pluralidade deixa de representar dispersão para transformar-se em condição de conhecimento. Cada linguagem preserva sua especificidade justamente porque encontra outras linguagens igualmente legítimas.
Nesse sentido, o DOMO – Arte em Construção revela uma compreensão particularmente generosa do fazer artístico. Mais do que reunir artistas sob um mesmo nome, o projeto cria circunstâncias para que pesquisas independentes possam amadurecer em proximidade, compartilhando experiências, referências e possibilidades de crescimento mútuo. A exposição torna visível esse processo, evidenciando que a produção artística também se fortalece pela troca, pela escuta e pela presença do outro.
A imagem sugerida pelo título da mostra talvez possa ser compreendida menos como uma passagem do indivíduo para o coletivo e mais como uma transformação da própria experiência do olhar. Um coro não elimina as vozes que o constituem; ao contrário, depende da permanência de suas diferenças para produzir sua riqueza sonora. Da mesma forma, esta exposição não solicita que as obras abandonem sua singularidade. É precisamente dessa permanência que nasce a possibilidade de uma experiência compartilhada.
Ao final do percurso, percebe-se que nenhuma obra permaneceu exatamente a mesma. Não porque tenha sido modificada materialmente, mas porque passou a existir em um novo campo de relações. Também o visitante já não observa cada trabalho isoladamente. Carrega consigo a memória dos encontros anteriores, permitindo que uma imagem permaneça reverberando na seguinte, que uma matéria altere a percepção de outra, que um gesto continue ecoando muito depois de deixar de estar diante dos olhos.
Talvez seja justamente essa a experiência que Do Solo ao Coro e à Orquestra oferece. Não a afirmação de uma identidade coletiva, nem a simples reunião de diferentes artistas, mas a demonstração de que a arte continua produzindo sentidos sempre que cria novas formas de encontro. A exposição recorda que nenhuma obra encerra completamente seus significados. Eles continuam a nascer cada vez que um olhar estabelece uma relação inédita entre aquilo que parecia, até então, permanecer separado.
Nenhuma dessas vozes procurou falar pelas outras. Cada uma preservou sua linguagem, sua pesquisa e suas perguntas. É justamente dessa convivência entre diferenças que nasce o coro. Não um coro de vozes uníssonas, mas uma composição em que cada timbre permanece reconhecível, enriquecendo o conjunto sem perder sua singularidade.
A exposição não propõe uma resposta única para o que é a arte contemporânea. Ao contrário, afirma que sua riqueza reside na pluralidade de caminhos, na coexistência de perspectivas e na possibilidade de que diferentes formas de pensar, sentir e criar ocupem o mesmo espaço sem renunciar às suas particularidades.
Quando as luzes da exposição se apagam, o coro e a orquestra não se desfazem. As obras continuam existindo na memória, nas perguntas que permanecem abertas e nas relações que cada visitante estabelece entre elas e sua própria experiência.
Porque uma exposição termina.
Mas as vozes continuam a ressoar."
Nilo de Almeida - Curador e Pesquisador de Arte Contemporânea
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